Duas irmãs diabéticas da comunidade Vila Esperança, na zona rural de São Luís, corriam o risco de perder a visão. Durante uma ação de telerretinografia realizada pelo Núcleo de Telessaúde da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), lesões na retina foram identificadas precocemente. Em menos de 30 dias, ambas realizaram o tratamento necessário e evitaram a cegueira.
A história é uma das muitas que ilustram o impacto da telessaúde no Maranhão, onde a tecnologia vem aproximando o acesso à saúde especializada de populações que vivem longe dos grandes centros urbanos.
São pessoas que talvez não tivessem a mesma oportunidade que tantas outras têm. Conseguimos chegar a esses locais e mudar o desfecho dessas histórias. No caso das irmãs da Vila Esperança, as duas poderiam ter ficado cegas se a gente não tivesse chegado a tempo.
(coordenadora administrativa do Núcleo de Telessaúde da UFMA, Amanda Araújo)
Criado em 2007 no Hospital Universitário da UFMA, inicialmente vinculado à Rede Universitária de Telemedicina (RUTE), o núcleo integra o Programa Telessaúde Brasil Redes desde 2014. Ao longo dos anos, expandiu sua atuação e se tornou uma referência nacional em teleassistência, teleeducação e desenvolvimento de soluções tecnológicas para a saúde.
Nasceu bem pequenininho e foi crescendo. Hoje nos consideramos um núcleo importante não apenas regionalmente, mas também nacionalmente, especialmente na área de teleeducação.
(coordenador do Núcleo de Telessaúde da UFMA, professor Humberto Costa)
Atualmente, o serviço está presente em 58 municípios maranhenses e já se prepara para ampliar sua atuação para mais dez cidades, alcançando 68 municípios.
Diagnóstico especializado mais perto da população
Por meio da oferta nacional de telediagnóstico, realizada em parceria com universidades federais, o núcleo disponibiliza teleeletrocardiograma e telerretinografia, além de teleconsultorias, teleinterconsultas e ações de teleeducação.
Segundo Breno Lucas, coordenador de Telediagnóstico do núcleo, a rede conta atualmente com 201 pontos ativos de telediagnóstico distribuídos em hospitais, unidades básicas de saúde e outros serviços da rede pública.
São locais que possuem equipamentos de eletrocardiograma ou de retinografia e participam ativamente da oferta dos serviços. Hoje temos 58 municípios ativos e estamos ampliando para mais dez.
(Breno Lucas)
Desde abril de 2024, quando foi iniciado o atual projeto de telediagnóstico, já foram realizados 24.797 exames laudados. Desse total, 23.816 são eletrocardiogramas e 981 retinografias.
O alcance dos exames é ampliado pelo uso de equipamentos portáteis. No caso da retinografia, os aparelhos podem ser deslocados entre diferentes localidades, permitindo que o atendimento chegue a regiões remotas.
Com um equipamento portátil e profissionais capacitados, conseguimos alcançar áreas de difícil acesso em todo o estado.
(Breno Lucas)
Tecnologia para reduzir filas e salvar vidas
Além da realização de exames, o Núcleo de Telessaúde da UFMA também atua na qualificação das filas de espera por consultas especializadas.
Em parceria com a Prefeitura de São Luís, o trabalho de revisão e organização dos encaminhamentos já permitiu reduzir em mais de 5 mil pacientes a fila da cardiologia, que anteriormente contava com cerca de 14 mil pessoas aguardando atendimento.
Outro caso emblemático ocorreu no município de Itapecuru-Mirim. Durante a realização de um eletrocardiograma, a equipe identificou sinais compatíveis com um infarto agudo do miocárdio em um paciente.
Conseguimos identificar que ele estava tendo um infarto. O diagnóstico permitiu o encaminhamento imediato e ajudou a salvar sua vida
(coordenadora Amanda Araújo)
Hanseníase e educação permanente
A hanseníase é uma das prioridades do núcleo. Desde 2016, o projeto Hanseníase em Foco oferece suporte especializado às equipes de saúde por meio de teleinterconsultas.
A hanseníase ainda é muito forte no Maranhão. Temos uma atuação intensa nessa área e conseguimos avanços importantes nos últimos anos.
(professor Humberto Costa)
Além da assistência, o núcleo investe fortemente na educação permanente dos profissionais de saúde. Podcasts, webpalestras, cursos e transmissões ao vivo abordam temas como saúde mental, epidemiologia, hanseníase e prevenção de doenças.
Nosso objetivo é sempre a educação. As transmissões ultrapassam as fronteiras do Maranhão e chegam a outros estados e até outros países.
(coordenador de Comunicação do núcleo, Luís Felipe Dias)
Todas as atividades oferecem certificação e podem ser utilizadas na capacitação dos profissionais de saúde.
Sofia: tecnologia desenvolvida no Maranhão
Grande parte das ações do núcleo é viabilizada pela Sofia, plataforma desenvolvida pela própria equipe da instituição. Criada em 2018, a ferramenta surgiu da necessidade de reunir informações estratégicas sobre os serviços prestados e apoiar a tomada de decisões.
Sofia significa Sistema Online de Fortalecimento Iterativo para a Atenção Primária. Ela nasceu porque precisávamos ter acesso aos nossos próprios dados e indicadores.
(professor Humberto Costa)
A plataforma integra teleconsultorias, teleinterconsultas e outras modalidades de atendimento remoto. Com o tempo, ganhou versões web e aplicativo para ampliar o acesso dos usuários.
Segundo Pedro Rocha, coordenador de Tecnologia da Informação do núcleo, os sistemas desenvolvidos pela equipe sustentam praticamente todas as modalidades de atendimento ofertadas.
Estamos nos bastidores desenvolvendo códigos e sistemas, mas sabemos que do outro lado existem pessoas e vidas sendo salvas por causa desse trabalho.
(coordenador de Tecnologia da Informação do núcleo, Pedro Rocha)
Uma missão que vai além da tecnologia
Para o professor Humberto Costa, a telessaúde representa mais do que uma atividade profissional. É um compromisso de vida.
Minha mulher diz que tem ciúmes da Sofia porque eu vivo mais para ela do que para qualquer outra coisa, brinca.
(professor Humberto Costa)
Cirurgião de formação, ele conta que decidiu dedicar sua carreira à telessaúde ao perceber o potencial transformador da tecnologia.
Quando eu era cirurgião, operava quatro ou cinco pacientes por semana. Com a telessaúde, consigo alcançar mil pessoas em uma única webpalestra. É isso que me motiva todos os dias.
(professor Humberto Costa)
Ao conectar profissionais, serviços e pacientes em diferentes territórios, o Núcleo de Telessaúde da UFMA vem mostrando como a inovação pode fortalecer o Sistema Único de Saúde, reduzir desigualdades e levar cuidado especializado a quem mais precisa.
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