Telessaúde de Goiás amplia acesso a especialistas pelo SUS Digital

O Núcleo de Telemedicina e Telessaúde de Goiás, vinculado à Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG), tem se consolidado como uma das principais experiências de saúde digital do país.

Criado em 2007, o serviço nasceu como parte de uma estratégia nacional de apoio à Atenção Primária à Saúde e, desde então, vem ampliando o acesso da população a ações de teleassistência, telediagnóstico, teleducação e apoio técnico às equipes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Atualmente, o Núcleo atua em 241 dos 246 municípios goianos e também apoia municípios de outros estados por meio da oferta nacional de serviços, especialmente na área de teleoftalmologia.

A estrutura conta com equipe multiprofissional, colaboradores, teleconsultores e especialistas que auxiliam profissionais da rede pública na discussão de casos, emissão de laudos e qualificação do cuidado.

Na prática, o Núcleo funciona como uma ponte entre os profissionais que estão nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e especialistas que podem apoiar o diagnóstico, a conduta clínica e a continuidade do cuidado. A proposta não substitui o atendimento presencial. Ao contrário, fortalece a rede local, complementa o trabalho das equipes e contribui para ampliar o acesso da população a serviços especializados, principalmente em municípios com maior dificuldade de deslocamento, carência na oferta de exames e disponibilidade de especialistas.

A atuação do Núcleo está alinhada à Rede Brasileira de Telessaúde, iniciativa do Ministério da Saúde voltada à expansão dos serviços de telessaúde no SUS. A rede apoia profissionais, gestores e serviços de saúde com modalidades como teleconsulta, teleconsultoria, teleinterconsulta, telediagnóstico, telemonitoramento e teleorientação.

A estratégia integra o Programa SUS Digital e é conduzida no âmbito das ações da Secretaria de Informação e Saúde Digital do Ministério da Saúde (SEIDIGI/MS).

Como funciona o acesso aos serviços

O acesso aos serviços do Núcleo começa, em geral, pelo município. Secretarias Municipais de Saúde, coordenadores locais ou gestores da Atenção Primária formalizam o interesse e realizam o credenciamento junto ao Telessaúde Goiás. No caso dos municípios goianos, o contato pode ser feito diretamente com o Núcleo. Já para municípios de outros estados, especialmente quando se trata da oferta nacional, o fluxo passa pelo Ministério da Saúde, por meio da SEIDIGI, que recebe a manifestação de interesse e encaminha a solicitação à UFG para análise e organização do serviço.

Após o cadastro, as equipes das UBS passam a interagir diretamente com o Núcleo. Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde cadastrados podem acessar a plataforma, enviar dúvidas, discutir casos clínicos, solicitar teleconsultorias ou encaminhar exames para emissão de laudos, conforme a modalidade disponível.

De acordo com Rogerio Gomes Arantes, gerente administrativo do Núcleo de Telemedicina e Telessaúde de Goiás, o processo começa com a manifestação formal do município e, depois da liberação, os profissionais da rede local passam a ter acesso às atividades.

O município deve, por meio do secretário ou coordenador, entrar em contato conosco, via ofício, para fazermos o cadastro no projeto telessaúde. A partir do momento em que o município é liberado, o profissional autorizado pela unidade já consegue acessar os serviços.

(Rogério Arantes)

Para o funcionamento básico, o município precisa dispor de internet, computador e conexão adequada para uso da plataforma. No caso de exames específicos, como a retinografia, também é necessário contar com equipamentos próprios ou receber a campanha itinerante organizada pelo Núcleo, quando disponível.

Resumo

1️⃣ Manifestação de Interesse

???? Município solicita adesão ao programa

  • Secretário Municipal de Saúde
  • Coordenador local
  • Gestor da Atenção Primária

➡️ Envia ofício e solicita credenciamento


2️⃣ Credenciamento

Municípios de Goiás

????️ Contato direto com o Núcleo de Telessaúde Goiás

Municípios de outros estados

???? Solicitação enviada ao Ministério da Saúde (SEIDIGI)

➡️ Ministério encaminha à UFG para análise


3️⃣ Cadastro e Liberação

✅ Município aprovado

➡️ Profissionais autorizados da rede municipal recebem acesso à plataforma

  • Médicos
  • Enfermeiros
  • Demais profissionais de saúde

4️⃣ Acesso aos Serviços

???? Plataforma Telessaúde Goiás

Os profissionais podem:

???? Solicitar teleconsultorias

???? Discutir casos clínicos

❓ Tirar dúvidas com especialistas

???? Encaminhar exames para laudos

???? Participar de ações de educação permanente


5️⃣ Estrutura Necessária

???? Unidade Básica de Saúde

É preciso ter:

???? Internet

???? Computador

???? Conexão adequada para a plataforma


6️⃣ Serviços Especializados

????️ Exames como retinografia

Necessário:

???? Equipamento próprio

ou

???? Atendimento por campanhas itinerantes do Núcleo


Resultado

❤️ Mais acesso a especialistas

⚡ Diagnóstico mais rápido

???? Capacitação permanente das equipes

???? Fortalecimento do SUS Digital nos municípios


Sugestão visual do fluxo

???? Solicitação do Município
⬇️
✅ Credenciamento
⬇️
????‍⚕️ Cadastro dos Profissionais
⬇️
???? Acesso à Plataforma
⬇️
???? Teleconsultorias | ???? Laudos | ???? Capacitação
⬇️
❤️ Mais cuidado para a população pelo SUS Digital

Serviços disponibilizados

O Telessaúde Goiás oferece um conjunto de serviços voltados ao apoio da rede pública, com foco na Atenção Primária. Entre as principais frentes estão a teleassistência, a teleducação, o telediagnóstico, as teleconsultorias e as ações de suporte técnico e de gestão.

  • Na teleassistência, profissionais das UBS podem discutir casos clínicos com especialistas e receber orientações para qualificar a conduta. A modalidade funciona como uma segunda opinião formativa, contribuindo para aumentar a resolutividade da Atenção Primária e reduzir encaminhamentos desnecessários.
  • Na teleducação, o Núcleo disponibiliza aulas, cursos, seminários, webconferências, conteúdos gravados e discussões voltadas aos profissionais de saúde. A estratégia fortalece a educação permanente, permite atualização das equipes e ajuda a levar conhecimento técnico a municípios distantes dos grandes centros.
  • No telediagnóstico, uma das principais frentes do Núcleo, são realizados laudos à distância em telecardiologia e teleoftalmologia. Na cardiologia, o serviço inclui laudos de eletrocardiograma. Na oftalmologia, o destaque é a retinografia, exame de imagem que permite avaliar o fundo do olho e identificar precocemente doenças que podem comprometer a visão.

Entre 2015 e 2026, o Telessaúde Goiás realizou 22.654 exames de telerretinografia e 80.850 atendimentos em telecardiologia. No campo da educação em saúde, foram registrados 430.617 acessos a teleaulas gravadas e 384.944 participações em teleaulas ao vivo.

Campanha de detecção das principais causas de cegueira

Uma das ações mais reconhecidas do Núcleo é a campanha de detecção das principais causas de cegueira, realizada com uso de retinógrafo. A ação é voltada especialmente à identificação de doenças como catarata, glaucoma, retinopatia diabética, degeneração macular relacionada à idade, pterígio e outras alterações relacionadas à retina.

Segundo Grazielle Almeida Madriny Paim, auxiliar de enfermagem do Telessaúde Goiás e responsável pela organização da campanha de detecção das principais causas de cegueira no estado, o serviço é gratuito para os municípios credenciados e pode ser solicitado pelo gestor municipal, secretário de saúde ou coordenador local. A equipe do Núcleo também realiza contato ativo com os municípios para apresentar a campanha e organizar a operação.

Essa não é uma campanha refrativa. Ela não tem como foco a prescrição de óculos. O objetivo é detectar doenças que podem comprometer a visão e que, muitas vezes, precisam de acompanhamento, tratamento, cirurgia ou medicação.

(Grazielle)

A campanha pode realizar até 140 exames por dia. O público prioritário inclui pessoas com diabetes a partir dos 12 anos e pessoas acima de 40 anos, faixa etária em que aumenta a atenção para doenças como o glaucoma, que pode evoluir de forma silenciosa. Pacientes com diabetes e hipertensão também são priorizados, a partir do levantamento feito pelos municípios.

Após a realização do exame, os laudos são devolvidos ao gestor municipal, em média, em até 30 dias. A partir do resultado, cabe à rede local organizar a continuidade do cuidado, seja com novos exames, acompanhamento, tratamento medicamentoso ou encaminhamento para cirurgia, quando necessário.

A campanha também tem revelado situações de pessoas que nunca haviam tido acesso ao exame. Grazielle relata o caso de uma moradora de Araguapaz que interrompeu a rotina de trabalho para realizar a retinografia pela primeira vez.

Ela disse que nunca tinha tido essa oportunidade. Para nós, é uma grande satisfação atender esse público e levar uma tecnologia que muitas pessoas talvez não acessassem de outra forma.

(Grazielle)

Em outra situação, durante uma ação em Pires do Rio, a equipe identificou, por meio da imagem ocular, um corpo estranho no olho de um trabalhador que havia sofrido acidente com fagulha de solda. O caso foi encaminhado pela gestão municipal para atendimento especializado.

A gente se depara com acidentes de trabalho, acidentes domésticos e também com muita falta de informação. Por isso, esse trabalho precisa fazer parte da prevenção.

(Grazielle)

Referência nacional em teleoftalmologia

A experiência acumulada em Goiás fez com que o Núcleo se tornasse referência nacional na oferta de laudos em teleoftalmologia. Além da atuação nos municípios goianos, o serviço recebe exames de 18 estados da Federação para análise por especialistas vinculados ao Núcleo.

O médico e doutor Alexandre Taleb, coordenador do projeto, explica que a teleoftalmologia foi uma das áreas de especialização do serviço desde o início. A proposta é usar imagens do fundo de olho para identificar precocemente doenças que podem levar à perda da visão.

O programa busca, por meio da retinografia, identificar as principais causas de cegueira: catarata, glaucoma, degeneração macular relacionada à idade e retinopatia diabética. Ao prevenir a cegueira, reduzimos o custo do tratamento e, principalmente, o impacto social para o paciente, para a família e para o sistema de saúde.

(Coordenador do Projeto, Dr. Alexandre Taleb)

Segundo Taleb, a devolução do laudo para a equipe da Unidade Básica de Saúde permite que o cuidado permaneça próximo do cidadão. A tecnologia, nesse sentido, não afasta o paciente da rede local; ao contrário, fortalece o vínculo com os profissionais que já acompanham sua trajetória no SUS.

A teleoftalmologia também dialoga com estratégias nacionais de ampliação do acesso à atenção especializada, como o Agora Tem Especialistas, ao contribuir para o diagnóstico oportuno e para a organização dos fluxos de cuidado.

Apoio direto à Atenção Primária

O foco principal do Telessaúde Goiás é a Atenção Primária. É nas UBS que surgem boa parte das demandas, seja para discussão de caso, solicitação de laudos, participação em teleaulas ou organização de campanhas. O Núcleo, no entanto, não substitui os fluxos municipais de regulação. Quando um paciente precisa seguir para atendimento especializado, a continuidade do cuidado é organizada pela própria rede municipal ou estadual.

Essa articulação preserva o papel da Atenção Primária como ordenadora do cuidado e fortalece a capacidade das equipes locais. Em vez de simplesmente encaminhar o usuário para outro ponto da rede, o profissional da UBS pode contar com apoio técnico para avaliar a melhor conduta, qualificar o diagnóstico e definir quando o encaminhamento é realmente necessário.

Para Rogerio Gomes Arantes, esse acompanhamento permanente dos municípios é uma das marcas do Núcleo. A equipe administrativa não apenas recebe documentos e libera cadastros; também monitora a utilização dos serviços, acompanha a adesão dos municípios, organiza grupos de comunicação, identifica quedas de participação e estimula o uso das ferramentas.

A gente tenta entender o que aconteceu quando há baixa adesão e busca auxiliar o município. Criamos grupos, acompanhamos indicadores, estimulamos a participação e procuramos oferecer temas importantes para a rotina dos profissionais. Todos saem ganhando com esse trabalho.

(Rogerio Gomes Arantes)

Educação permanente e troca de conhecimento

Além da assistência e dos laudos, a teleducação é um eixo estruturante do Núcleo. As aulas, cursos e seminários permitem que profissionais de diferentes municípios tenham acesso a conteúdos atualizados sem necessidade de deslocamento.

Essa dimensão educacional tem impacto direto na qualidade do cuidado, pois aproxima equipes da Atenção Primária de especialistas, protocolos e discussões clínicas. Também permite que temas estratégicos definidos pelo Ministério da Saúde e pela SEIDIGI sejam disseminados com mais capilaridade para os territórios.

Para o Núcleo, a formação continuada é indissociável da assistência. Ao discutir um caso, orientar um profissional ou oferecer uma aula, o serviço contribui para que o conhecimento permaneça no território e qualifique atendimentos futuros.

Integração com a Rede Brasileira de Telessaúde e com a SEIDIGI

A experiência goiana integra um movimento mais amplo de expansão da saúde digital no SUS. A Rede Brasileira de Telessaúde é apoiada pelo Ministério da Saúde e reúne Núcleos de Telessaúde que atuam como centros especializados em teleatendimento, com equipes clínicas e oferta de diferentes modalidades em todo o país.

No âmbito federal, a SEIDIGI é responsável por induzir, coordenar e apoiar políticas de informação e saúde digital no SUS. Entre essas políticas estão a expansão da telessaúde, o fortalecimento do Programa SUS Digital, a interoperabilidade, o apoio à tomada de decisão por gestores e a qualificação do cuidado ofertado à população.

Para o médico e doutor Alexandre Taleb, a criação de uma secretaria específica para cuidar da informação e da saúde digital representou um avanço estratégico para o país. Segundo ele, a articulação conduzida pela SEIDIGI entre seus departamentos e áreas técnicas, como o DATASUS, o DEMAS e o DESD, e plataformas estruturantes, como a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), permite avançar não apenas na teleassistência e na teleducação, mas também na integração segura de informações e na incorporação da saúde digital ao cuidado diário dos pacientes acompanhados pelas Unidades Básicas de Saúde.

A RNDS é a plataforma nacional de interoperabilidade do SUS. Ela permite a troca segura e padronizada de informações de saúde, conectando diferentes sistemas e serviços para apoiar a continuidade do cuidado, o acesso dos profissionais a dados qualificados e o planejamento da gestão pública em saúde.

A criação de uma secretaria específica para cuidar da saúde digital e da informação foi um ganho inestimável. Ela permite pensar novas ações, colocar a Estratégia de Saúde Digital de pé e integrar a telessaúde ao cuidado cotidiano dos pacientes acompanhados pelas Unidades Básicas de Saúde.

(Dr. Alexandre Taleb)

Tecnologia para reduzir distâncias

Ao longo de sua trajetória, o Núcleo enfrentou desafios como conectividade limitada, resistência inicial de profissionais ao atendimento remoto e necessidade de adaptação dos municípios ao uso das ferramentas digitais. A pandemia de covid-19, segundo os profissionais entrevistados, acelerou a compreensão sobre a importância da telessaúde e mostrou que o cuidado mediado por tecnologia pode ser realizado com segurança, responsabilidade e vínculo.

A pandemia mostrou a necessidade de outra forma de cuidar. As pessoas viram que era possível ter empatia, cuidado e atenção mesmo de forma não presencial”.

(Dr. Alexandre Taleb)

Para Grazielle Almeida Madriny Paim, o impacto do trabalho está justamente em levar saúde e tecnologia a pessoas que dificilmente teriam acesso a determinados exames.

Não é só gostar. É comprometimento e se colocar no lugar do outro. A gente leva saúde e tecnologia de ponta a pessoas que poderiam não ter esse acesso de forma tão fácil.

Rogerio Gomes Arantes também destaca o sentido humano da atuação administrativa.

Mesmo não sendo profissional de saúde, eu me sinto levando saúde, porque sei que meu trabalho ajuda o profissional que está na outra ponta.

Com quase duas décadas de atuação, o Núcleo de Telemedicina e Telessaúde de Goiás demonstra como a tecnologia pode fortalecer o SUS quando está integrada à rede pública, à universidade, aos municípios e às políticas nacionais. Mais do que aproximar especialistas de pacientes, a telessaúde aproxima conhecimento, cuidado e oportunidade de quem mais precisa.

Assista aqui:

Max de Oliveira

Ministério da Saúde