Antes de realizar um procedimento em um paciente com câncer, médicos do Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, puderam treinar a passagem de um broncoscópio em uma réplica exata da traqueia do paciente. O modelo anatômico foi produzido em impressora 3D pelo Núcleo de Telessaúde da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), permitindo que a equipe simulasse o procedimento antes da intervenção real e aumentasse a segurança da tomada de decisão clínica.
O caso é um dos exemplos de como a saúde digital vem sendo utilizada para apoiar profissionais e qualificar o atendimento aos pacientes. Referência nacional na área, o Núcleo de Telessaúde da UERJ reúne assistência remota, teleeducação, pesquisa, inovação e formação profissional em uma trajetória que acompanha a própria evolução da telessaúde no Brasil.
O nosso núcleo tem uma trajetória pioneira, junto com as atividades promovidas, incentivadas e induzidas pelo Ministério da Saúde.
(professora e coordenadora do núcleo, Alexandra Monteiro)
A história da iniciativa começou ainda nos primeiros anos dos anos 2000, quando a universidade estabeleceu uma parceria internacional com a Universidade Johns Hopkins. Em 2005, a instituição passou a integrar o Projeto Piloto Nacional de Telessaúde e, desde então, participa de ações voltadas à assistência remota e à qualificação dos profissionais de saúde.
Quase duas décadas depois dos primeiros projetos de telessaúde, a iniciativa segue alinhada à estratégia de transformação digital do SUS conduzida pelo Ministério da Saúde por meio da Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI). A atual secretária da pasta, Ana Estela Haddad, foi citada por Alexandra como uma das lideranças envolvidas nos movimentos que impulsionaram a telessaúde no ambiente universitário e no SUS.
Começamos a partir do movimento liderado pelo professor Francisco Campos e pela professora doutora Ana Estela Haddad, que hoje é a Secretária de Informação e Saúde Digital.
Ao longo dos anos, o núcleo desenvolveu tecnologias próprias e aperfeiçoou continuamente seus sistemas de atendimento remoto.
Nós sempre desenvolvemos e aperfeiçoamos os nossos sistemas de teleatendimento. Isso fez com que o nosso núcleo, ao longo dessa jornada de 23 anos, permanecesse na oferta da telessaúde, agora incluindo o Centro de Teleconsulta do Hospital Universitário Pedro Ernesto.
Alexandra Monteiro
Formação para a saúde digital
Além da assistência, a capacitação de profissionais é uma das principais frentes de atuação do núcleo. Há cerca de duas décadas, a equipe oferece cursos de educação a distância voltados para trabalhadores da saúde, contribuindo para a disseminação do conhecimento e o fortalecimento das práticas de saúde digital em todo o país.
Mais recentemente, as ações passaram a contemplar também profissionais da área de tecnologia da informação, especialmente por meio do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde Digital (PET Saúde Digital).
Outro diferencial é o Programa de Pós-Graduação em Telessaúde e Saúde Digital da UERJ, considerado o único curso stricto sensu do país dedicado exclusivamente à área.
Outro braço, que é um diferencial do núcleo até o momento, é o nosso programa de pós-graduação stricto sensu em Telessaúde e Saúde Digital, que é o único no país.
(Alexandra Monteiro)
O curso utiliza metodologia a distância e já formou mestres em todas as regiões brasileiras, contribuindo para a produção de conhecimento e o desenvolvimento de soluções voltadas à transformação digital do SUS.
Impressão 3D a serviço do cuidado
Um dos projetos mais inovadores desenvolvidos pelo núcleo é o Laboratório Saúde 3D, criado com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e voltado ao desenvolvimento de soluções para o Hospital Universitário Pedro Ernesto.
No local, estudantes, pesquisadores e profissionais produzem instrumentos, guias cirúrgicos, próteses, órteses e modelos anatômicos complexos a partir de exames de imagem dos pacientes.
Por meio da impressão 3D nós somos capazes de produzir instrumentos, guias cirúrgicos e principalmente modelos anatômicos complexos, que hoje são o carro-chefe do nosso laboratório para auxílio na conduta clínico-cirúrgica.
(estudante de medicina Iasmin Lourenço, integrante da equipe)
Entre os modelos já produzidos estão aneurismas de aorta e traqueias estenosadas utilizadas para planejamento cirúrgico e treinamento de equipes médicas.
Nós tivemos um caso muito interessante de uma traqueia estenosada em um paciente com câncer. Produzimos o modelo 3D para que os cirurgiões conseguissem treinar a passagem de um broncoscópio antes mesmo do procedimento.
(Iasmin Lourenço
Além das impressoras, o laboratório conta com scanners de alta resolução capazes de reproduzir partes do corpo humano com grande precisão, auxiliando na produção de próteses e outros dispositivos personalizados.
Para Alexandra, a utilização da impressão 3D representa um exemplo de como a inovação pode apoiar a prática clínica e ampliar a qualidade do cuidado prestado aos pacientes.
A saúde 3D é uma pesquisa aplicada na prática. Ter na mão uma peça impressa em 3D ajuda o cirurgião na tomada de decisão e na simulação de procedimentos. Esse é um diferencial que tem trazido um retorno muito positivo.
Formação de novos talentos
O ambiente de inovação também tem servido como espaço de formação para estudantes que desejam atuar na área da saúde digital.
Foi o caso de Iasmin Lourenço, que conheceu o laboratório ainda no início da graduação em medicina e participou de sua implantação.
Quando eu cheguei aqui, o laboratório estava sendo montado. Eu consegui vislumbrar todas as possibilidades que a impressão 3D conseguia fornecer para a saúde. Comecei a frequentar, ajudei a montar o laboratório e me apaixonei.
Hoje, a estudante vê no projeto uma oportunidade de unir tecnologia, pesquisa e cuidado em saúde.
Hoje o Saúde 3D é um brilho nos olhos para mim.
