Moradora de Piçarra, município localizado a cerca de 745 quilômetros de Belém, a coordenadora pedagógica Bruna Alves, de 32 anos, encontrou na telessaúde uma forma de garantir o acompanhamento especializado do filho sem precisar enfrentar longas viagens até a capital. Heitor, de 8 anos, faz acompanhamento com neuropediatra por meio do Núcleo de Telessaúde da Universidade do Estado do Pará (UEPA).
É maravilhoso, é gratificante, porque a questão da flexibilidade, a questão da economia e o atendimento humanizado. Na verdade, é o meu filho que faz acompanhamento com o neuropediatra pela telemedicina. Eu só tenho mesmo a agradecer pela qualidade dos profissionais, pela economia e pela flexibilidade. É maravilhoso o atendimento.
(Bruna Alves)
Histórias como a de Bruna têm se tornado cada vez mais frequentes desde a implantação do Núcleo de Telessaúde da UEPA, em setembro de 2024. Atualmente, a iniciativa atende 27 municípios paraenses por meio de teleconsultas e teleinterconsultas nas especialidades de neurologia, cardiologia, ortopedia, dermatologia, urologia e reumatologia.
O objetivo é ampliar o acesso da população a especialistas sem a necessidade de longos deslocamentos até a capital, realidade comum em um estado marcado por grandes distâncias geográficas e desafios logísticos.
Segundo o coordenador do núcleo, Emanoel de Jesus Souza, a procura pelo serviço já supera a capacidade inicialmente prevista pelo projeto.
Hoje realizamos cerca de 900 consultas por mês. A demanda é muito maior do que a prevista inicialmente e recebemos constantemente solicitações de novos municípios interessados em aderir ao serviço.
(coordenador do núcleo, Emanoel de Jesus Souza)
Além das consultas, o núcleo também realiza teleinterconsultas, modalidade em que profissionais da Atenção Primária podem discutir casos clínicos com especialistas, fortalecendo a resolutividade do cuidado nos territórios.
Atendimento para quem mais precisa
A atuação do núcleo vai além dos municípios participantes e alcança populações que historicamente enfrentam maiores barreiras de acesso à saúde.
Entre os beneficiados estão comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e pessoas privadas de liberdade. Em uma comunidade quilombola da região de Oriximiná, por exemplo, os atendimentos são realizados por teleconsulta com apoio de agentes comunitários de saúde. A localidade fica a cerca de oito horas de barco da sede do município e não conta com médico permanente.
O serviço também atende pessoas privadas de liberdade em unidades prisionais da região de Marituba. Com a telemedicina, pacientes conseguem receber acompanhamento especializado sem a necessidade de deslocamentos que demandariam viaturas, escolta e mobilização de equipes de segurança.
Outra frente de atuação ocorre em parceria com a Marinha do Brasil, que realiza ações de assistência à saúde em comunidades ribeirinhas de difícil acesso. Aproveitando a estrutura de conectividade disponível nas embarcações, especialistas do núcleo participam das missões levando atendimento remoto a regiões onde o acesso aos serviços de saúde ainda é um desafio.
Casos resolvidos sem necessidade de deslocamento
Os impactos da iniciativa já podem ser percebidos na vida dos pacientes. Um dos casos destacados pela equipe foi o de uma criança que aguardava havia dois anos por uma consulta em neuropediatria. O atendimento foi realizado por meio da telessaúde, permitindo avaliação especializada sem a necessidade de deslocamento até a capital.
Outro exemplo é o de um paciente vítima de acidente de motocicleta que recebeu acompanhamento ortopédico remoto após passar por cirurgia. Durante a teleconsulta, os profissionais identificaram sinais iniciais de infecção na região operada e providenciaram rapidamente seu encaminhamento para atendimento presencial. A intervenção precoce evitou o agravamento do quadro e contribuiu para a recuperação do paciente.
Para o médico ortopedista Edmilson Brabo, a telessaúde tem papel fundamental em um estado das dimensões do Pará.
A gente consegue levar atendimento especializado para pessoas que muitas vezes teriam dificuldade para chegar a um especialista. Além disso, quando há necessidade de avaliação presencial, o paciente já chega com exames e acompanhamento iniciados, o que agiliza a continuidade do cuidado.
(Dr. Edmilson Brabo)
Atualmente, a ortopedia é a especialidade mais procurada pelos usuários do serviço, seguida pela dermatologia. Entre as principais demandas estão dores na coluna, ombros e joelhos, além de doenças dermatológicas que exigem acompanhamento especializado.
Formação profissional e teleeducação
Além da assistência, o núcleo também atua na formação de profissionais e estudantes da área da saúde. Acadêmicos de medicina e enfermagem acompanham os atendimentos e participam de estudos sobre o perfil epidemiológico dos pacientes e a qualidade dos serviços prestados.
A teleeducação é outro eixo importante da iniciativa. Professores da universidade realizam webconferências e cursos voltados para profissionais da rede pública, abordando temas definidos pelos próprios municípios de acordo com suas necessidades locais.
As aulas são transmitidas ao vivo e, posteriormente, disponibilizadas em ambiente virtual, ampliando o acesso ao conhecimento e fortalecendo a educação permanente em saúde.
Para William, estudante de medicina e estagiário do núcleo, a experiência contribui tanto para a formação acadêmica quanto para a compreensão da realidade do SUS.
O Pará é um estado muito grande e muitos pacientes vivem a horas de distância da capital. A telessaúde ajuda a resolver demandas sem que essas pessoas precisem viajar longas distâncias para conseguir atendimento especializado.
(estagiário do núcleo, William)
Perspectivas de expansão
Com a crescente demanda pelos serviços, o Núcleo de Telessaúde da UEPA planeja ampliar sua atuação nos próximos anos. Entre as propostas estão a oferta de novas especialidades, como psiquiatria e infectologia, além da expansão das ações de telediagnóstico.
A equipe também trabalha para fortalecer a emissão de laudos à distância em áreas como radiologia, eletrocardiograma e eletroencefalograma, além de ampliar as atividades de teleeducação para profissionais da rede de saúde.
Em um território marcado por grandes distâncias geográficas e desafios de acesso, a experiência da UEPA demonstra como a saúde digital pode aproximar especialistas de quem mais precisa. Para famílias como a de Bruna e Heitor, a tecnologia representa não apenas comodidade, mas a possibilidade de receber acompanhamento especializado com qualidade, continuidade e cuidado mais perto de casa.
